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A narrativa incompleta das “Cavalhadas de São Pedro” 

As “Cavalhadas de São Pedro”, no concelho da Ribeira Grande, persistem como um ritual que se escuda na palavra “tradição” para justificar prácticas que, à luz de uma sociedade mais consciente, não podem ser perpectuadas, pelo menos nos moldes que se realizam.  

A celebração, frequentemente apresentada como expressão identitária e devoção popular, assenta num paradoxo evidente: exalta-se a festa, desvalorizando-se o esforço e sofrimento físico e emocional imposto aos animais que a sustentam, que percorrem quilómetros sob temperaturas elevadas, pisando asfalto incandescente, rodeados por ruído e multidões – estímulos que não se compadecem com a sua natureza. O resultado é um cenário de stress, exaustão e risco, que tem originado, inclusive, denúncias de maus-tratos e até mortes — factos que dificilmente se enquadram na narrativa idílica tantas vezes promovida. 

Mais inquietante é o anúncio de um documentário dedicado às Cavalhadas, concebido não como reflexão crítica, mas como peça de exaltação, ao optar por enaltecer o evento sem confrontar o sofrimento animal que lhe está associado, contribuindo para perpectuar uma visão romantizada que mascara a realidade. Agravado pela sua comercialização na BTL, parasitando o “destino Açores”.  

Transformar sofrimento potencial em producto audiovisual é uma forma velada de o normalizar, reforçando uma estética folclórica que transforma seres vivos em adereços de um espectáculo. Ao privilegiar a estética e a narrativa, corre-se o risco de silenciar aquilo que não cabe no enquadramento festivo: o cansaço, o medo e o desgaste físico.  

A cultura não deve ser um escudo para a negligência, nem a memória colectiva de um argumento para ignorar o que hoje sabemos sobre bem-estar animal – não se trata de um capricho moderno, mas de um imperativo civilizacional. Insistir em tradições que os colocam em risco é um retrocesso ético.  

A verdadeira evolução cultural não se mede pela capacidade de preservar rituais a qualquer custo, mas pela coragem de os transformar quando deixam de refletir os valores contemporâneos. Há que apostar na reimaginação das celebrações, libertando-as de prácticas que comprometem vidas. Deverá a história prevalecer sobre repetidos erros impossíveis de ignorar?