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Progresso que impõe destruição 

A intenção de modernizar a rede viária não pode servir de pretexto para um crime ambiental. O anúncio do abate de mais de duas dezenas de árvores centenárias no nó do Cerrado das Covas, nas Capelas, insere-se na construção da variante à freguesia – sobre a qual o PAN/Açores já havia manifestado a sua discordância, devido aos seus impactes ambientais – indignação que se adensou junto da população, expressa numa petição pública e no posterior requerimento do partido dirigido ao Governo, impondo uma reflexão séria sobre escolhas políticas, éticas e civilizacionais que fazemos enquanto sociedade.  

Falamos de elementos vivos, com décadas ou séculos de existência, que estruturam a paisagem, regulam o microclima, acolhem biodiversidade e fazem parte da memória colectiva e da identidade do território, reduzidas agora a meros obstáculos físicos a remover em nome do “progresso”, visto como um dano colateral aceitável. 

Castanheiros, carvalhos, plátanos, acácias, pomares de citrinos e amoreiras citados no projeto constituem ecossistemas complexos que sustentam fauna — incluindo o morcego dos Açores, única espécie de morcego endémica da Região e classificada como criticamente em perigo — e micro-habitats que se formaram ao longo de séculos. 

Porquanto, o quadro legal e o bom senso exigem que, perante um impacto desta natureza, o traçado seja reavaliado e ajustado sempre que existam alternativas viáveis que evitem danos ambientais irreversíveis. Foi nesse sentido que o PAN/A requereu informação detalhada, nomeadamente sobre o inventário das árvores a abater, o estado fitossanitário de cada exemplar, quais os critérios que justificam o corte e as alternativas técnicas estudadas para o evitar, como o transplante de exemplares ou a alteração do traçado. 

Aniquilar árvores centenárias é uma atrocidade sem precedentes, do mesmo modo que a simples promessa de compensação com plantações futuras não repõe o valor ecológico, patrimonial e paisagístico perdido de árvores com um elevado grau de maturidade ecológica: uma árvore centenária não é substituível por exemplares jovens plantados hoje. Por isso, qualquer compensação deve ser pensada de forma integrada — incluindo a protecção efectiva de remanescentes e a garantia de habitats alternativos para espécies sensíveis como o morcego dos Açores. Sabendo de antemão que esta espécie se abriga sobretudo em troncos de árvores, a probabilidade da sua presença naquela área não pode ser ignorada, pelo que a aplicação do princípio da precaução é imperativa. 

Face à gravidade da situação, impõem-se transparência, responsabilidade e uma avaliação rigorosa das alternativas disponíveis. O desenvolvimento infraestrutural é legítimo e necessário, mas não pode, nem deve ser feito à luz da destruição do que nos define. Se não soubermos ponderar escolhas, corremos o risco de perder, de forma irreversível, parte da identidade e da riqueza biológica da nossa ilha. É tempo de optar pela responsabilidade.