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Promete-se modernização, entrega-se incerteza 

2025 terminou marcado pela enxurrada de críticas à pretensão da obrigatoriedade de não ter dívidas ao Estado para atribuição do subsídio de mobilidade. No mesmo ritmo arrancou 2026, após as recentes declarações de Marcelo Rebelo de Sousa, a semanas de encerrar uma década de mandato, dando conta de um novo modelo que penaliza quem vive longe dos centros de decisão e depende do transporte aéreo para estudar, trabalhar, cuidar da saúde ou visitar a família, não raras vezes com orçamentos mínimos, confiando num Estado que agora lhes responde com silêncio e opacidade.   

Um país que proclama coesão territorial, na práctica, continua a empurrar os arquipélagos para a periferia, lembrando que a mobilidade continua a ser um privilégio e não um direito, num quadro político do mesmo padrão em que, também, António Costa, no seu último dia enquanto PM, solicitou a fiscalização de normas de um diploma relativo à gestão do Mar dos Açores, prejudicial aos açorianos. 

Na altura em que entra em vigor a nova plataforma digital, surge a suspensão dos pagamentos, alegadamente fruto da transição para esse sistema, que veio apenas adicionar burocracia extraordinária, num contrassenso à promessa de acelerar reembolsos, transformando o factor “modernização” na interrupção de uma ferramenta cuja única função é assegurar a mobilidade da população açoriana, sobretudo de famílias com menor poder económico. Como acreditar numa solução tecnológica quando o histórico recente é marcado por falhas repetidas? Como se justifica que um serviço essencial continue vulnerável aos mesmos erros? Basta recordar Julho de 2025, quando problemas técnicos deixaram centenas de pessoas sem o apoio a que tinham direito, ou quando pretendiam excluir os cidadãos não nacionais, mas residentes, do recurso ao mesmo. A memória é curta para quem governa, mas não para quem paga bilhetes a preços incomportáveis.  

Estará a República condenada a olhar para as periferias como um incómodo administrativo? Pior — terá como único efeito práctico das suas decisões agravar desigualdades territoriais, já profundas, alimentando uma distância geográfica e política? 

Enquanto assim for, continuará a crescer a sensação de que as periferias são chamadas a pagar o preço de decisões tomadas por quem não vive, não sente e não compreende a realidade insular. E assim começa um novo ano, com a velha e reiterada sensação de abandono.