A captura ilegal e morte brutal de um tubarão, no passado dia 29 de Abril, em Rabo de Peixe, não se cinge a um mero caso isolado de crueldade — é um retrato perturbador de falência moral colectiva. A tortura infligida sobre o animal, e transmitida em directo nas redes sociais, revela muito mais do que ignorância ou imprudência – revela intenção, prazer na violência e a banalização da brutalidade como espectáculo.
Não estamos perante um acto impulsivo. Houve tempo, preparação, encenação e partilha pública, demonstradas na plena consciência da acção e na vontade de a exibir. Quando a violência passa a ser exibida como entretenimento, algo de profundamente errado se instalou na sociedade.
Como se não bastasse, várias crianças foram expostas a este cenário grotesco de sofrimento animal transformado em palco para fotografias. A ciência comportamental é clara: a exposição a actos de violência contribui para a sua normalização – seja sob animais domésticos, de pecuária, selvagens, marinhos, transmitindo-se, assim, que a dor alheia é irrelevante, que a força bruta é aceitável e que a compaixão é descartável.
Tal situação foi prontamente denunciada pelo PAN/A, que aguarda a punição dos responsáveis, enquanto sinal de que a sociedade açoriana não tolera este tipo de comportamento e que a violência contra animais não mais permanecerá ilibada – caso contrário, a complacência irá corroer a imagem de um arquipélago amplamente promovido como um santuário natural, que vive do mar e da biodiversidade, escudando-se da beleza das paisagens como cortina de fumo para mascarar prácticas que trivializam o sofrimento animal e, que, convenhamos, não abona a favor de quem nos governa.
Proteger a natureza não se resume a enaltecer o oceano ou a defender abstratamente os ecossistemas – é, sobretudo, garantir o respeito por quem neles habita. A ética ambiental exige coerência: o tratamento deve ser igual para todos os animais, independentemente do habitat, da espécie ou do valor simbólico que lhes atribuímos – caso contrário, estaremos apenas a practicar uma ecologia de fachada, incapaz de transformar verdadeiramente a relação que mantemos com o mundo natural.
Enquanto actos como este forem encarados com leviandade, a impunidade será a devastadora mensagem de que a crueldade compensa e que a vida, quando não é humana, vale pouco. O silêncio, aqui, será cumplicidade.

