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HDES: 300 milhões de esperança, 600 milhões de realidade 

O novo HDES nasce de uma ferida aberta: o incêndio de Maio de 2024, expôs de forma brutal a vulnerabilidade da infraestrutura hospitalar e a incapacidade de continuar a adiar decisões estruturantes. A tragédia tornou evidente aquilo que há muito era sabido — os Açores precisam de um hospital central moderno, funcional e capaz de servir todas as ilhas com equidade. O PAN tem defendido essa visão regional, integrada e racional, mas reconhecer a necessidade não significa ignorar os riscos, sobretudo quando o valor previsto de 300 ME será inscrito no Orçamento da Região, já profundamente endividada. 

A construção de um hospital desta escala é um teste à maturidade financeira e política da autonomia, e aqui reside o ponto fulcral: a República tem obrigações claras na garantia do direito à saúde, e não pode limitar-se a contribuições simbólicas. A insularidade é uma condicionante estrutural que encarece obras, equipamentos, transportes e mão-de-obra. Se o Estado exige que os cidadãos açorianos tenham acesso aos mesmos cuidados que os restantes portugueses, então tem de assumir uma fatia substancial do investimento, não como favor, mas como dever constitucional. 

Além disso, acreditar que o hospital custará 300 milhões é, no mínimo, ingénuo. O exemplo do Hospital Central da Madeira é um aviso claro: começou com um preço base de 265 milhões, subiu para 415 milhões e já ultrapassa os 450 milhões — um aumento de cerca de 50% face ao valor inicial. Nada indica que o cenário açoriano será diferente. A Região não tem margem para absorver um desvio desta dimensão sem comprometer políticas essenciais. 

Importa recordar que um hospital central exige uma reorganização profunda da rede de cuidados, da articulação entre ilhas e da capacidade de resposta em situações de emergência. Financiar de forma robusta este projeto não se trata de “pagar tijolos”, mas de investir na coesão territorial, na redução de evacuações dispendiosas e na dignidade dos cuidados prestados a todos os açorianos. 

O incêndio de 2024 tornou impossível continuar a adiar o futuro – contudo, avançar sem um compromisso financeiro sólido da República será transformar uma necessidade urgente num risco orçamental colossal. A ambição é legítima; a ilusão, perigosa. O novo hospital tem de ser construído com responsabilidade, rigor e com o financiamento nacional que a saúde dos açorianos exige.