A presença da alga asiática nos Açores, detectada há seis anos, tornou-se numa verdadeira crise ecológica, social e económica, alcançando oito das nove ilhas, insinuando-se pelas zonas costeiras com uma persistência quase tirânica. Uma expansão que reflete um problema ambiental, mas também um espelho perturbador da incapacidade governativa de antecipar, prevenir e agir.
A época balnear chega envolta na ironia de se abrir oficialmente as zonas balneares aos banhistas, enquanto a própria costa parece recusar-se a ser balnear. Nos últimos verões, as praias e piscinas açorianas têm sido palco de arrojamentos massivos de biomassa castanha que se acumula em montes fétidos, escuros e viscosos, que, quando entram em decomposição, libertam um odor nauseabundo que se entranha no ar e no quotidiano das populações, tornando-se parte da paisagem, afastando banhistas e instalando um desconforto que se tornou tema recorrente nas redes sociais.
A praia do Porto Pim é de tal forma afectada que perdeu a sua Bandeira Azul, e em São Miguel, em 2024, foram removidas 150 toneladas de algas da Praia das Milícias – exemplos dos episódios mais visíveis de um fenómeno que se está a apoderar das zonas balneares do arquipélago.
Os impactos negativos são múltiplos e interligados. No plano ecológico, a alga asiática sufoca habitats nativos, altera cadeias alimentares e compromete a biodiversidade marinha. No plano económico, afeta o turismo, reduz a atractividade das praias e impõe custos elevados de limpeza e gestão. No plano social, deteriora a qualidade de vida das populações costeiras, que se veem privadas do usufruto pleno do mar — um elemento identitário profundo na cultura açoriana. Até a saúde pública é colocada em causa, já que a decomposição prolongada pode atrair pragas, libertar compostos e criar ambientes insalubres, sobretudo em zonas densamente frequentadas.
É evidente a necessidade de uma estratégia integrada que combine prevenção, monitorização científica, campanhas de limpeza regulares, investimento em investigação e, sobretudo, vontade política. É necessário compreender os ciclos de proliferação da alga, antecipar os períodos críticos e agir antes que os arrojamentos se tornem incontroláveis.
Se nada for feito, arriscamo-nos a assistir à lenta erosão de um dos maiores trunfos do arquipélago: a sua relação íntima, saudável e ancestral com o mar.

