O episódio ocorrido na Escola Secundária da Ribeira Grande, materializado na queda de um pedaço de viga numa sala de aula, não pode ser lido como um acaso isolado, nem como uma fatalidade imprevisível – trata-se de um exemplo evidente de uma lógica reactiva, que mistura gestão pública com administração de crises, fruto de anos de desinvestimento, adiamentos sucessivos e de uma complacência que se tornou estrutural.
Ainda que a tragédia tenha sido evitada por acaso, foi criada por negligência, sendo que tal não diminui a gravidade do sucedido, nem a responsabilidade de quem permitiu que a situação chegasse a este ponto, expondo com maior crueza a fragilidade as condições em que alunos, docentes e trabalhadores desenvolvem a sua actividade.
Desde há muito que pais, encarregados de educação e membros da comunidade escolar vêm alertando para o estado crítico do edifício, exigindo intervenções urgentes de manutenção e requalificação, reiterados em diversos momentos e por diversas vias. Ainda assim, as sucessivas advertências foram ignoradas e relativizadas, num exercício recorrente de desvalorização da voz da comunidade educativa.
Em 2025, o PAN/Açores apresentou, em sede de Orçamento, uma proposta de alteração que previa a alocação de um milhão de euros para obras de requalificação da escola – uma proposta, ironicamente, ou não, chumbada pela Coligação, ainda que, semanas antes, numa reunião e posterior visita às instalações da escola, com a presença de representantes de vários partidos, incluindo do PSD, ter sido possível constatar, de forma inequívoca, o avançado estado de degradação das infraestruturas e o perigo que estas representavam – uma decisão política que ignorou deliberadamente a evidência observada no terreno.
Posteriormente, no plenário de Dezembro, voltámos a questionar o Governo sobre a ausência de verbas destinadas à reabilitação daquela escola, sublinhando a urgência da situação, cuja resposta se manteve alinhada com o padrão conhecido: inacção, adiamento e falta de compromisso, confirmando-se a ideia de que só a materialização do risco — ou a proximidade da tragédia — é suficiente para abrir os olhos e desbloquear investimentos que deveriam ter sido feitos atempadamente. Chegados a este ponto, não se trata apenas de má gestão, mas de uma falha política profunda na defesa do direito à educação em condições de segurança, qualidade e respeito pela comunidade escolar.

